Por dentro de um clube de troca de casais

Por dentro de um clube de troca de casais.

“Adoro ver o meu marido com outra mulher”, diz Catarina (nome fictício), 42 anos. “Dá-me prazer. Mas não gostaria de saber que ele andava a trocar mensagens com outra, porque já não saberia o que está a acontecer. Não tenho ciúmes do que vejo, tenho ciúmes do que não controlo.” O swing surgiu na vida deste casal há cerca de três anos, quando já contavam vinte de casamento. Na sequência de uma visita a uma feira erótica, começaram a falar do assunto. “Sempre fomos sexualmente muito ativos”, diz o marido, Manuel, 42 anos. “O swing é um complemento. Elevou o nível da nossa relação porque exige confiança total.”

O swing deixou de ser uma prática secreta de um número restrito de casais como Catarina e Manuel, em casas alugadas em locais recônditos. Atualmente, existem 25 clubes ativos em Portugal e a maior comunidade virtual de swingers tem cerca de dez mil membros ativos e quase o dobro de candidatos em processo de validação. Embora continue a ser assumido por uma minoria face à monogamia dominante, o swing apresenta-se hoje como um universo cada vez mais vasto e heterogéneo, abrangendo uma leque diversificado de práticas, com códigos e regras próprios.

As regras são claras: sexo puro e duro, sem floreados emocionais, consentido e mútuo. A troca direta entre casais – nas versões soft (partilha do espaço e de carícias, sem coito) e hard (envolvimento sexual total) – é a expressão clássica do swing, mas não a única. Pode ocorrer com outra pessoa (um single) desenhando uma ménage a trois, em grupo, ao estilo orgia romana e pode envolver apenas um dos elementos do casal. Os defensores de uma visão mais purista do swing consideram que, na essência, deve ser praticado em casal, mas com a disseminação de clubes, festas e ambientes de expressão sexual desinibida, o universoswing passou a incluir diversas expressões de sexo liberal.

ARRISCAR NA FANTASIA

Como se cruzam então os limites da monogamia normativa para uma prática ainda escondida, arriscada e socialmente censurada? Como se passa de um lado ao outro? A internet é, quase invariavelmente, a porta de entrada. Nos últimos anos, proliferaram sites, fóruns e grupos onde os swingers podem dar a conhecer-se e encontrar pessoas com interesses idênticos. Tudo começa com a criação de um perfil e de um nick, uma identidade secreta, partilhada apenas pelos iniciados.

Simplex foi o nick adotado por Filipe e Sandra (nomes fictícios), de 45 anos, casados há 19 anos, com uma filha adolescente. Foi ele quem há cerca de oito anos começou a procurar vias alternativas para satisfazer as fantasias comuns. “Foi mais por curiosidade e não tanto pela rotina. Queríamos ter experiencias novas”, diz Filipe. Quando falou de swing à mulher, a reação “não foi negativa”, mas de alguma cautela. “Nunca tal me tinha passado pela cabeça. Tinha alguns receios. Não sabia se conseguiria estar de forma íntima com outro casal, que sentido faria estar a partilhar o meu marido, que sentimentos iria ter. E, sim, tive receio de que pudesse prejudicar a minha relação.”

“O swing tornou a nossa relação mais sólida”

Andaram em conversações cerca de um ano. “Foi tudo muito conversado. Cada passo bem ponderado. A comunicação, para nós, sempre foi muito importante”, explica Filipe. Sandra recorda a primeira vez que o envolvimento com outro casal foi completo. “Senti-me muito bem. Para mim, a questão emocional era a mais relevante. Tinha medo de ter ciúmes e não tive.” Para este casal, definir algumas regras tornou-se crucial. A primeira é que estão sempre juntos. Muitos casais têm experiências sexuais separados, mas Filipe defende uma visão purista do swing: “Estamos sempre os dois porque o meu prazer advém também de vê-la a ter prazer com outro”. Outras regras são o uso obrigatório do preservativo e a rejeição completa de qualquer forma de violência.

“O swing tornou a nossa relação mais sólida. Não há nada a esconder. E não há confusão de sentimentos. Isso só acontece se o casamento não for estável.”.

Depois de oito anos de swing, um número indeterminado de parceiros e vivências, o balanço de Filipe é positivo. Sandra concorda. “Este é o nosso segredo. Fora do mundo swing, ninguém sabe. Este lado oculto torna as coisas ainda mais interessantes.

INVESTIGAR PARA COMPREENDER O SWING

Ana Durão concluiu recentemente um estudo sobre o tema. A investigadora da Universidade Portucalense, no Porto, pretendia não só compreender o estilo de vida swinger, mas também avaliar até que ponto os casais envolvidos neste tipo de relação aberta são ou não mais felizes do que os que pautam o relacionamento pela monogamia normativa.

As conclusões foram claras: os casais swingers revelam índices mais elevados de felicidade na relação, de satisfação sexual, bem com maior intimidade física e psicológica do que os casais com exclusividade afetiva e sexual.

Ana começou por fazer pesquisas online para depois entrar no mundo dos clubes de swing, onde conheceu diversos casais. Das entrevistas e dos inquéritos que realizou a 51 casais (39 convencionais e 12 swingers), chegou a conclusões que, embora surpreendentes para quem não estuda estas questões, estão em linha com outras pesquisas realizadas sobre modelos alternativos de conjugalidade.

Medir sentimentos não é tarefa fácil, mas a Psicologia socorre-se de alguns instrumentos para caracterizar algumas dimensões específicas ou conceitos mais abrangentes. No caso desta investigação, utilizou-se um inquérito (a Escala Triangular do Amor de Sternberg), que avalia o amor em três dimensões: intimidade psicológica (partilha de interesses, gostos, estilo de vida), erotismo (ligação passional, atração física, prazer sexual) e compromisso (projeto de vida conjunto, vinculação conjugal ao longo do tempo).

Estudos dizem que aos 40 anos, 40% dos homens e 20% das mulheres já traíram

Seria de esperar que os casais swinger apresentassem pontuações mais elevadas na vertente erótica, mas os resultados demonstram que evidenciam também maior partilha emocional e um sentido mais profundo de compromisso. “Ou seja, globalmente estão mais satisfeitos, tanto a nível emocional como sexual, do que quem está numa relação definida pelos modelos tradicionais de fidelidade”, diz Ana Durão. Estes resultados estão em linha com outros estudos internacionais. Uma investigação da Universidade de Bellarmine, que envolveu mais de mil swingers norte-americanos, conclui que os casais neste tipo de relação aberta apresentam níveis mais elevados de satisfação no casamento e na vida em geral.

 

 

A experiência, que poderia ser altamente desestabilizadora, parece ter efeitos muito positivos na relação”, diz Paulo Jesus, orientador do mestrado em Psicologia Clínica e da Saúde na Portucalense. Mas, independentemente destes resultados, não se conclui que o swing seja a solução para manter uma relação feliz ou curar um casamento insatisfatório. “O mais importante é a comunicação, incluindo sobre a relação e o desejo”, diz o professor de psicologia.

O tema ainda é tabu, mas de crucial importância considerando o desinvestimento emocional e erótico que caracteriza, de uma forma geral, as relações amorosas ao fim de alguns anos. Nessa fase de erosão de sentimentos, em que os cônjuges se tornam mais companheiros do que amantes, instala-se a frustração que, não raras vezes, impulsiona a procura de relações extra-conjugais.

Paulo Jesus cita estudos europeus que referem que, aos 40 anos, quarenta por cento dos homens e vinte por cento das mulheres já traíram os respetivos parceiros. “Os casais swing transformaram o que é uma experiência individual, em que um dos elementos procura novos estímulos eróticos, numa estratégia de casal. O swing, por si só, não é a resposta para superar as crises conjugais, mas exige um acréscimo de comunicação que é muito positivo.”

ACESSO A CLUBES COM REGRAS APERTADAS

A maior comunidade online swinger em Portugal é o SwPt, que conta com cerca de cinco mil casais ativos: a grande maioria (92%) são casais heterossexuais, mas também casais do mesmo sexo, singles, transexuais e crossdressers (ou travestis), o que significa que esta rede social agrega quase dez mil pessoas.

E há mais 17 mil candidatos em processo de validação, de acordo com os responsáveis pelo site. Cerca de metade dos inscritos reside na zona de Lisboa e situa-se na faixa etária entre os 30 e os 40 anos. Os estudos internacionais apontam para um perfil sócio-económico acima da média, embora com tendência para democratização. Desde que foi fundado, em 2009, o SwPt conta com cerca de 59 mil registos.

Não se pode extrapolar estes números para estimar a dimensão do swing em Portugal. Inegável é que este comportamento culturalmente contra-hegemónico está a crescer. Existem 25 clubes a funcionar em todo o país, com predominância nas regiões de Lisboa (dez) e Porto (seis) – só em Valongo existem quatro.

Entrar num destes clubes é aceder a um universo paralelo onde (quase) tudo é permitido

O acesso a estes espaços é restrito. As páginas na internet nunca disponibilizam a morada. É preciso contactar o clube para figurar na guestlist ou ser convidado por clientes regulares. Alguns só permitem a entrada a casais e os mais rigorosos exigem identificação à entrada. Os singles femininos são permitidos nalguns espaços, principalmente se forem acompanhar um casal, mas os masculinos nem sempre são bem-vindos. E estão sujeitos a regras: não podem contactar diretamente os casais, devem aguardar que o convite lhes seja dirigido.

Entrar num destes clubes é aceder a um universo paralelo onde (quase) tudo é permitido. Um espaço de total desinibição onde a sedução é sexualmente explícita e todas as fantasias podem acontecer. 
A dimensão varia bastante – o Lust, em Ermesinde, tem capacidade para algumas dezenas de pessoas, enquanto o XClube, em Lisboa, pode juntar várias centenas em eventos mais concorridos –, mas integram sempre duas áreas distintas, a social e a privada.

A zona social geralmente inclui um bar, uma pista de dança, uma área lounge e, em muitos casos, um varão para striptease de profissionais ou de clientes. Perfomances de BDSM (bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo) também são frequentes. É nesta zona social que os rituais de (des)casalamento começam a desenrolar-se.

Tudo mais ou menos semelhante a uma discoteca normal, não fosse o clima de engate sem dissimulações, os cumprimentos quase sempre de beijo na boca e a indumentária muito ousada, principalmente delas, que pode ser apenas lingerie ou roupa de sexshop. Em noites de festas temáticas, a fantasia eleva-se ao nível do imaginário cinematográfico. As festas inspiradas no célebre filme de Stanley Kubrick, De olhos bem fechados (Eyes wide shut, no original) são um clássico nos clubes de swing. Não surpreendentemente, As 50 Sombras de Grey também foi muito popular este ano.

A área social funciona como preliminar para a ação que se desenvolve na zona privada. O acesso é livre e todos podem participar ou simplesmente observar, desde que cumpram os códigos de comportamento. Há quartos com lotação para quatro ou seis pessoas e outros com capacidade para mais de uma dezena.

No Lust, em Ermesinde, por exemplo, a ocupar a parte central da área privada está uma cama comunitária, vedada apenas por cortinas translúcidas. Um sofá permite assistir, da primeira fila e em direto, a sexo em grupo. No Intimidades, um dos maiores clubes do Norte, em Alfena (Valongo), há quartos temáticos, de inspiração japonesa ou grega, e um percurso labiríntico com múltiplos recantos e esconderijos.

Fonte: @DN (versão completa)

Entrevista: @swpt.org

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